Por que eu ensino online?

Por Devoney Looser  

Eu talvez nunca teria procurado um trabalho de ensino on-line se meu marido não tivesse sido diagnosticado com câncer. Prevendo um futuro com múltiplas estadias em hospitais,  recuperação domiciliar e necessidade antecipada de minha enfermagem amadora – tudo isso  enquanto precisaria cuidar de nossos dois filhos – eu avancei na oportunidade de, temporariamente, passar a ter um horário de ensino on-line.

Ter a opção de trabalhar de forma remota e assíncrona foi uma dádiva de Deus. Eu imaginei que meus alunos online não teriam idéia se eu estava moderando discussões online ou corrigindo provas ou trabalhos ao sentar-se ao lado de um esposo preso a um Oxaliplatin IV. Durante esta crise familiar, eu sabia que sentiria falta de estar na mesma sala com os alunos, e do dar-e-receber instantâneo de uma sala de aula física. Eu sempre imaginei o ensino online apenas como um trabalho temporário e de curto prazo.

Certamente nunca esperei amar esse trabalho, muito menos chegar a acreditar nele como uma questão de justiça social e prática feminista. Mas para minha surpresa, eu amo e acredito.

As objeções dos professores ao ensino online continuam amplas nos círculos acadêmicos com os quais me relaciono. Em cada uma das universidades onde eu ensinei, encontrei colegas que temiam ou desprezavam a prática, a maior parte do tempo sem nunca realmente ter ensinado online. Um departamento que eu fazia parte chegou a passar uma resolução contra o ensino online. (E claro não foi uma surpresa quando essa universidade simplesmente encontrou outros dispostos a projetarem o currículo online que os membros regulares da faculdade se recusaram a criar).

Anos mais tarde, eu ainda ouço alguns dos mesmos argumentos contra este método de ensino:

  • “Ensino online não é apenas um espaço para alunos preguiçosos que não querem trabalhar duro ou que não querem se matricular em meus cursos presenciais?”
  • “Será que a universidade não vai roubar minhas aulas em vídeo e vai continuar as usando depois que eu morrer, pagando uma pechincha para alguém apenas corrigir as provas?”
  • “Ensino online não é só uma versão mais leve e mais barata do que oferecemos regularmente?”
  • “Ensino online não é só uma maneira de ganhar dinheiro em cima de um produto ruim?”

Minha resposta para todas essas perguntas, e agora eu posso dizer isso com confiança – e feliz, já que meu marido está se recuperando do câncer – é “Não”. Alunos online são muito ‘presentes’ em discussões online; eles têm muita ambição e são bem direcionados em seus trabalhos; e eles são tão ávidos por conhecimento quanto alunos que fazem cursos presenciais.

Ainda que você tema o contrário, suas aulas em vídeo não estão fadadas a se tornar preciosas commodities que seu empregador continuará utilizando daqui a uma década. Vídeos não envelhecem bem e alunos experientes provavelmente não aceitarão um currículo centrado em imagens antigas, de um professor que já faleceu, mas que aparenta ser uma “aula nova”.

Ensino online – como qualquer outro tipo de ensino – pode ser feito bem ou mal. Pode ser oferecido com quantidades apropriadas de trabalho e desafios para os alunos ou não.

Alunos online não merecem nem um pouco de pretensão, ceticismo ou desprezo.  Eles merecem — como qualquer outro estudante — encorajamento infalível, admiração profunda e a melhor instrução que temos a oferecer.

E quanto a ganhar dinheiro? Isso depende da qualidade e do custo para os alunos. É verdade que ensino online não é subsidiado por bolsas de estudo ou ajudas financeiras com tanta frequência como as aulas em campus. Isso varia de acordo com o programa, nível e instituição, claro. Mas por essa lógica, o fato de que estudantes online podem estar pagando valores cheios pela oportunidade de ganhar um diploma, deveria colocar o ônus sobre os membros do corpo docente para oferecer um bom valor instrucional. Não devemos apenas desistir.

O estereótipo de que aulas online são menos rigorosas, ou que os estudantes não podem se engajar com o rigor apropriado, não é suportado pela minha experiência. Qualquer um que já tenha ensinado aulas presenciais já olhou um dia para seus alunos e enxergou tédio e desinteresse. Em comparação, meus alunos online sempre escolhiam quando logar e  fazer seus trabalhos e, portanto, eles pareciam muito conectados e interessados quando estavam online. É possível que eu não tenha tantas habilidades em reconhecer os alunos online apenas pelas suas reações e movimentos, mas eu notei que eles são, como um grupo, excepcionalmente dedicados, motivados e talentosos.

Minhas percepções foram modeladas pelas histórias de como eles voltaram a estudar. Para muitos deles, um programa de estudos online era a única opção para obter um diploma. Eles viviam em áreas rurais, sem transporte, enfrentavam deficiências restritivas, tinham muitas obrigações familiares, ou não encontravam cursos presenciais que eram oferecidos em horários que os permitiriam manter seus empregos. A educação online raramente era a sua primeira opção, mas frequentemente era a sua única opção.  

Um dos meus mais talentosos alunos era uma mãe que não trabalhava e vivia a milhares de milhas de distância da universidade. Ela está criando nove filhos, todos com menos de 14 anos. Em qual momento da história ela teria tido a possibilidade de continuar estudando? Na minha universidade (Arizona State University), nos explicam que o nosso aluno online “típico” é uma mulher que, por diversas razões, largou a faculdade da primeira vez sem terminá-la. Ela retorna anos depois, normalmente com significantes obrigações financeiras e familiares. Por que eu não percebi antes que o ensino online é uma questão feminista?

Um encontro cara-a-cara, ao acaso, me fez perceber esse ponto. Era uma cerimônia de graduação robusta de início de Dezembro. Naquele dia, eu tive o privilégio de servir como marechal da universidade, carregando uma grande e pesada bandeira, liderando centenas de pessoas para a arena. Eu me senti como uma triunfante Sufragista. Quantas instituições já tiveram marechais mulheres em suas cerimônias no ano em que eu nasci, me perguntei?

Foi uma cerimônia muito significativa para mim por outras razões, também. Minha mãe e minha tia estavam na platéia, visitando de outro estado. Nenhuma delas tem um diploma bacharelado. Como adolescente, eu vi minha mãe batalhar por um diploma de técnico na universidade comunitária local, mas eu fui a primeira da família a conseguir um diploma de bacharel. Como a minha mãe e outros parentes não conseguiram pagar pela viagem para a minha graduação em Ph.D., elas também nunca tinham me visto em minhas roupas de doutora. Foi algo muito importante para mim que essas mulheres que me criaram estivessem ali orgulhosamente batendo palmas na platéia naquele dia de formatura em Dezembro.

Assim que a cerimônia acabou, eu fui até a área externa esperar pela minha mãe e pela minha tia. Eu vi uma jovem graduanda, sozinha, carregando um daqueles enormes balões que tinham caído do teto durante a cerimônia. Todos ao nosso redor estavam abraçando alguém ou tirando fotos, e nós acabamos fazendo contato visual e sorrindo.

“Parabéns!” eu disse à ela, porque eu me sentia feliz, e porque parecia ser a coisa certa a se dizer para uma recém-graduada ali sozinha. “Obrigada!” ela disse, animada.

A conversa poderia ter terminado por ali, mas ela me pediu ajuda. Ela estava procurando por uma professora, ela disse, para agradecê-la por ter mudado sua vida. O problema é que ela não sabia como a professora era. Ela tinha feito um curso online. 

Eu questionei mais algumas questões sobre seus estudos e planos futuros. Ela tinha acabado de voar vindo do seu estado no centro-oeste para a cerimônia. O diploma online que ela tinha acabado de conseguir já era o seu segundo bacharelado. O primeiro tinha sido uma experiência presencial, mas esse diploma online, de acordo com ela, tinha muito mais valor. Isso porque, dessa vez, ela tinha estudado aquilo que ela era, de fato, apaixonada, e não aquilo que os outros queriam que ela estudasse. Eu ensino cursos sobre a Jane Austen, então a história dela obviamente me lembrou da heroína Anne Elliot em Persuasão. Essa estudante “às sete-e-vinte, pensava muito diferente daquilo que a fizeram acreditar aos dezenove”. Ela estava ali, diante de mim, em seu segundo e impressionante desabrochar acadêmico.

Conseguir aquele diploma não tinha sido fácil da segunda vez, ela explicou. Seu bacharelado online foi, na verdade, mais desafiador do que a sua experiência presencial tinha sido. Ela amou isso e estava considerando buscar uma graduação online. Eu terminei aquela conversa convencida de que ela ainda faria grandes coisas – e fiz questão de lhe dizer isso. Eu percebi que, naquele momento, eu precisava fazer o meu melhor para representar a professora online que ela buscava.

Apenas algum tempo depois fui perceber que ela também representou algo para mim. Eu gostaria de ter tido a possibilidade de olhar todos os meus estudantes online nos olhos e parabenizá-los pessoalmente, apertando suas mãos e agradecendo pelos seus insights, energia e entusiasmo. Eu os teria contado sobre as grandes coisas que eu acredito que eles farão. Senti falta dessa troca pessoal.

Eu nunca vou advogar pela educação online como um espaço pedagógico utópico. De fato, eventos como cerimônias de graduação me convencem que o ensino online nunca vão suplantar aulas presenciais.

Ainda assim, houve um prazer em conversar com um aluno online de outro professor. Me fez imaginar que a empresa com a qual me engajo é ampla e possui multitudes. Muitos dos meus alunos online – a maioria mulheres trabalhadoras com vidas muito complicadas – começaram em situações como a da minha mãe a da minha tia. Os diplomas que nossos (muitos) alunos online estão recebendo hoje em dia, seriam “não conquistados” gerações atrás.

O corpo docente sabe melhor do que qualquer outro grupo profissional que todos indicadores confiáveis demonstram como uma população melhor educada pode beneficiar a todos nós. Por essa razão apenas, alunos online não merecem nem um pouco de pretensão, ceticismo ou desprezo. Eles merecem — como qualquer outro estudante — encorajamento infalível, admiração profunda e a melhor instrução que temos a oferecer. Apesar do fato de que todos os sinais indicam que eu não vou mais precisar solicitar por aulas online no próximo ano, se eu tiver a chance, eu vou escolher fazer tudo de novo.

 

Devoney Looser é professora de Inglês na Universidade do Estado do Arizona. Seu útlimo livro, Making of de Jane Austen, será publicado ainda esse ano pela Editora da Universidade Johns Hopkins. Seu twitter é @devoneylooser e @Making_Jane.

Artigo original (em inglês).

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Líder da comunidade de instrutores na Udemy Brasil

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